Domingo 6 de Abril, passeio a Avis.
Este Abril nasceu radioso! Mostrando-nos uma vez mais, como é generosa a mãe natureza.
Deu-nos o privilégio de apreciar, as primeiras rubras papoilas desta Primavera em flor semeadas ao acaso, entre esse verde de várias tonalidades que cobre os campos do nosso Alentejo amado.
Os pequenos coelhinhos davam-nos as boas vindas; saltitando nas bermas da estrada, como se brincassem ao esconde, esconde, de orelhas espetadas, lá iam fazendo.
Sua ginástica matinal.
As perdizes, praticavam pequenos voos treinando, quem sabe para fugir aos perigos que espreitam, a D. Cegonha, em seu porte altivo, caminhava solitária, de cabeça erguida, olhar atento, Quiçá, procurando material apropriado para restaurar seu antigo ninho, e ao mesmo tempo, num tac tac dizendo, olá, cheguei!
E trago meia branca.
Este quadro maravilhoso fazia-nos soltar ais de admiração e espanto.
Ao entrar-mos em Avis.
O branco das paredes caiadas, gritou mais alto que as torres das velhas muralhas.
Os rodapés das casas, pintados de amarelo e azul, brilhavam, chamando a nossa atenção.
Em algumas portas vestígios de antiguidade, como a exemplo os batentes, as aldrabas, os postigos! Pormenores, deveras interessantes.
Pousadas nos velhos telhados, lá estavam as esbeltas chaminés alentejanas, erguidas aos céus como verdadeiras sentinelas protegendo as casas, e dando um toque de altivez à Vila de Avis.
As ruas esperavam-nos, enfeitadas com laranjeiras, de onde pendiam cachos de suculentos e apetecíveis frutos! A brisa que corria, ia deitando ao chão a flor branca da laranjeira, considerada símbolo da pureza, e que as noivas de outrora, faziam questão de levar ao altar.
Hoje, atapetavam as velhas calçadas por onde passávamos, e quando o vento soprava por entre as muralhas o perfume se espalhava, e a natureza sorria.
Visitámos alguns monumentos entre eles a Igreja do convento de S. Bento de Avis, onde as cantadeiras da Alma Alentejana cantaram em coro, junto ao altar, uma moda religiosa.
Lá em baixo as águas do Maranhão ajoelham-se aos pés de Avis, que lá de cima lhes ordena dizendo. Desdobrem-se, saciem os nossos campos, e eu as abençoarei.
Quisemos subir ao ponto mais alto de Avis, para darmos nossa despedida.
A torre da Rainha.
O panorama era deslumbrante.
Bastava, erguermos o braço para tocar no céu.
E perante tanta beleza, a poesia aconteceu.
Só que desta vez, foi acompanhada com o som melodioso da passarada.
Que fizeram questão de se juntar a nós; e no final a natureza presenteou-nos com o seu aplauso.
Seguiu-se o almoço no Martins, onde saboreamos umas deliciosas migas de espargos bravos, acompanhadas de carne do alguidar, vinho da terra, e mais algumas iguarias a que tivemos direito.
Terminámos a refeição cantando em conjunto como se de uma oração se tratasse dando graças a Deus por tão excelente convívio.
Logo de seguida caminhamos em direcção a Benavila.
Pequeno povo, mais um, dos tantos que tentam, sobreviver à desertificação que afecta o belo interior alentejano.
Visitámos a Fundação Abreu Callado.
E num salão dignamente decorado o Grupo Recordar a Mocidade pôs ao rubro todos os presentes, abrindo o espectáculo com melodiosas cantigas acompanhadas de variados instrumentos musicais, transportando-nos de imediato aos anos setenta, oitenta, terminando a sua actuação com uma alegre rapsódia.
Logo, o grupo dos cavaquinhos da Alma Alentejana, em conjunto com algumas das
Cantadeiras, já ajeitavam o cavaquinho, e desatavam a talega das cantigas.
Umas originais seus, outras do bem conhecido. “Cancioneiro alentejano”.
Pondo assim todos os presentes cantando em conjunto, como por exemplo a já famosa Vila de Frades, terminando com a bela Açorda Alentejana.
Foi deveras uma tarde memorável.
Dali seguimos visitando o resto da Fundação, onde encontrámos bem representada a vida antiga do dia a dia alentejano.
Aos nossos olhos aflorou a lágrima da emoção, o sentimento falou mais alto ao olhar-mos, a casa de habitação com seus utensílios tão conhecidos de todos nós, a casa da matança, o lagar de azeite, onde o cheiro ainda permanece; o velho palheiro transformado em cocheira, onde repousam por tempo indefinido as velhas carroças; que apesar de paradas, ainda nos transportam a um longínquo passado, de vida dura, mas onde a saudade faz questão de estar presente a cada momento, envolvendo-nos assim num turbilhão de sentimentos.
A poetisa se emocionou
E a poesia aconteceu
A palavra então vibrou
O coração, se rendeu
O olhar embaciou
Só porque a alma doeu.
Terminámos esta visita ao passado.
E se há presente, que nunca será passado, este é um deles.
“”A prova do vinho””.
E neste caso, o bom vinho da Fundação Abreu Callado.
Onde o menos apreciador
Se rendeu ao seu sabor.
Gravamos em fotos, paisagens lindíssimas e inesquecíveis.
Mas gravamos nos corações, a lembrança maior.
As pessoas.
Que, apesar de poucas, foram suficientes para demonstrarem seu calor humano do qual não iremos esquecer.
A comprová-lo esteve o forte abraço na despedida.
Bem – hajam todos vós os que sabem receber, os que sabem abraçar quem os visita.
E também todos os que incentivam à preservação do nosso património, tendo sempre em mente que ele é o testemunho vivo da nossa história.
Desta vossa amiga do coração.

