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O Jovem e o Saxofone

por Rosa Guerreiro Dias, em 12.11.12
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  • Por mais tempo que passe, jamais vai apagar de nós a tua imagem meu querido meu amado sobrinho!
    Deixaste-nos a eterna saudade!

    O jovem e o 
    Saxofone 

    A bonita Vila raiana de Campo Maior; despertava mais uma vez com o toque dos sinos da velha Igreja, toque característico que o povo tão bem conhecia.
    Eram os primeiros toques das manhãs Domingueiras!
    Que anunciavam a primeira missa, a qual tinha por finalidade juntar seus fiéis.
    Dentro dos lares começava a azáfama de quem se sentia movido a participar nestes rituais.
    Assim acontecia na casa de um casal de emigrantes, regressados há alguns anos de terras de Sua Majestade.
    Trouxeram nas malas a desilusão, um sonho por realizar.
    Pela mão traziam uma filha de dez anos de idade e nos braços a riqueza maior que um pai pode ter um filho homem, o pequeno Edgar, menino levado, de tez clara, cabelos lisos e um olhar azulado que tanto prometia.

    O tempo lá seguia seu rumo!
    Edgar tinha agora cerca de treze anos e continuava a ser o enlevo de seus pais, e não só, mas também de todos os que o conheciam. 
    Simpatia, inteligência, bondade, eram algumas das qualidades que mais sobressaiam nele. 
    Naquele Domingo como em tantos outros lá estava a mãe apressando o menino, despacha-te filho pois tu sabes, tens que ser o primeiro a chegar à Igreja!
    A resposta era sempre dada com um enorme sorriso, enquanto ajeitava a poupa do cabelo da qual tinha grande vaidade.
    O menino sabia que a sua apresentação era muito importante pois muito cedo se entregara de corpo e alma há música, o que lhe proporcionava encontros, espectáculos, como este, em que participava melodiando as missas de Domingo na sua Vila.
    No princípio tocava órgão encantando todos os que o ouviam!
    Agora acompanhava o coro da igreja com o toque característico da sua viola, deixando a todos deslumbrados.
    A ponto da sensibilidade de alguns paroquianos os levar a imaginar que até as próprias imagens dos santos reflectiam um olhar mais brilhante do que era habitual, quando ouviam o som angelical da viola do pequeno Edgar.
    E assim tantos e tantos Domingos, tantas e tantas festas em que o menino musico participava! 
    Cada vez mais apurado, caminhando a passos largos para a sua realização pessoal, e para o orgulho e alegria da família.
    Frequentava o Conservatório na sua cidade distrito Portalegre, onde já granjeara a simpatia de todos os colegas e professores.
    Estes, já visualizavam nele um futuro bem promissor, imaginando gerar-se ali em terras do Alentejo um Mozart, um Beethoven, porque não?
    Se é desta massa que se fazem os grandes vultos da música em todo o mundo.
    Edgar, sempre acompanhado de seus pais e apoiado por toda a família, lá seguia num desbravar de caminhos onde as pautas musicais brilhavam juntamente com ele.
    Começavam a abrir-se os horizontes para o pequeno músico, depois de ter passado pela Banda Filarmónica da Vila onde residia, recebeu convite para entrar numa orquestra já bem conhecida e de renome no país.
    Depois de tantos instrumentos que por ele passaram, chegava um, dos que lhe traria maior prazer, o Saxofone, instrumento que ele manobrava em suas mãos como se fora um brinquedo; era um verdadeiro deslumbre, ouvir o som que saia da alma desse menino através deste instrumento musical!
    Choviam convites e um deles veio da Rússia convidando o jovem musico a delicia-los com sua arte, e assim de um dia para o outro, voa para esse país distante, onde permaneceu algum tempo, participando em concertos musicais e onde brilhou ao lado de outros jovens músicos , para mostraram ao mundo, que sem arte não se pode viver, e esta dos sons é imprescindível.
    Volta cheio de projectos, e bem mais consciente do passo seguinte.
    Avizinham-se os vinte e um anos, e Edgar já é homem, encantador de aspecto e simpatia.
    É apanhado de surpresa pela paixão.
    No conservatório cativa o coração da sua própria professora.
    Sua pouca experiência no campo do amor, o prende nos laços duma paixão arrebatadora, sonham uma vida a dois, embalados numa outra paixão que os liga, a música.
    Tudo o que era concertos ali estavam eles, o amor e a música.
    A pequena Vila continuava ali estendida na planície, feliz orgulhosa de mais um valor que tinha oferecido ao mundo, e em sua calma, lá ia acordando ao som dos sinos da velha Igreja, que ficara um pouco triste, pois ultimamente o jovem musico, derivado a outros compromissos, escasseava suas visitas.
    Certo dia a Vila acorda com o som costumeiro dos sinos.
    Mas, desta vez com um toque diferente, não era o chamamento para a missa; não! 
    O toque ouvido anunciava morte.
    As pessoas assomavam-se às portas e às janelas, na ansiedade de saberem quem partira.
    Aparece o primeiro zunzum, houve um grande acidente, diziam alguns, diz que morreu um jovem, diziam outros.

    Da casa do casal de emigrantes soaram gritos de dor, que se confundiam aos poucos com os gritos aflitivos do povo que corria pelas ruas dizendo morreu o Edgar, morreu o Edgar, o filho do Manuel João e da Benvinda!
    As pessoas corriam em direcção à casa do jovem, na esperança que não fosse verdade tal notícia, mas deparam com um quadro que jamais se apagará de suas memórias!
    Sobre a mesa um bolo de aniversário com vinte e uma velas, a seu lado um casal abraçado em choro compulsivo dizendo, Senhor, Senhor, diz que é mentira!
    Porquê Senhor? Porquê?
    Como havia chegado, Edgar partia!...
    A mesma hora, o mesmo dia, vinte e um anos depois! 
    Só que desta vez, deixando um rasto de tristeza.
    Na pacata Vila caiu um silêncio de luto.
    A capela onde Edgar tantas vezes tocara sua viola, abriu as portas ao povo, que procurava nela um refúgio para acalmarem sua dor, olhavam as imagens, procurando resposta para este pesadelo.
    Novamente a sua imaginação lhes trouxe à memória aquele brilho quando se ouvia o som da viola do pequeno Edgar…
    Só que desta vez, o brilho era passado, extinto para sempre, e em seu lugar surgiam lágrimas, não de alegria, mas de dor, pois faltava o som maravilhoso da viola, e do Saxofone do jovem Edgar.
    Os sinos da igreja redobravam o toque, confirmando a morte de Edgar e trazendo assim as pessoas há dura realidade…
    E assim num piscar de olhos, mais uma vez, uma vida é ceifada nas estradas deste país, privando o mundo inteiro da presença querida e cativante deste jovem e promissor Saxofonista. 

    ( Edgar Guerreiro) nascido a 12-11-1979- faleceu a 12-11-2000

    Rosa Guerreiro Dias (tia)
    12-11-2007
    12-11-2012

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publicado às 23:38



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