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HOMENAGEM

por Rosa Guerreiro Dias, em 14.11.08

   O jovem e o Saxofone

                << Conto real >>

A bonita Vila raiana despertava mais uma vez com o toque dos sinos da velha Igreja, toque característico que o povo tão bem conhecia.

Os primeiros toques das manhãs Domingueiras anunciavam a primeira missa, a qual tinha por finalidade juntar seus fiéis.

Dentro dos lares começava a azáfama de quem se sentia movido a participar nestes rituais religiosos. Assim acontecia na casa de um casal de emigrantes, regressados há alguns anos de terras de  Sua Magestade, trazendo nas malas a desilusão, um sonho por realizar. Pela mão traziam uma filha de dez anos de idade e nos braços a riqueza que esse país lhes tinha proporcionado, um filho homem, o pequeno Edgar, menino levado, de tez clara, cabelos lisos e um olhar azulado que tanto prometia.

O tempo passava tão rápido.

Edgar tinha agora cerca de treze anos e continuava a ser o enlevo de seus pais, de sua família, e também de todos os que o conheciam. Simpatia, inteligência, bondade, eram algumas das qualidades, que mais se destacavam nele.

Naquele Domingo, como em tantos outros, lá estava a mãe apressando o menino, despacha-te filho, pois tu sabes que tens que ser o primeiro a chegar á Igreja. A resposta era sempre dada com um enorme sorriso, enquanto ajeitava a poupa do cabelo, da qual tinha grande vaidade. O menino sabia que a sua apresentação era muito importante, pois muito cedo se entregara de corpo e alma à música, o que lhe proporcionava, encontros, espectáculos, como este, em que participava melodiando as missas de Domingo na sua Vila.

No princípio tocava órgão, encantando todos os que o ouviam; agora acompanhava o coro da Igreja com o toque característico da sua viola, deixando todos extasiados, a ponto da sensibilidade de alguns paroquianos os levar a imaginar que até as próprias imagens dos santos reflectiam um olhar mais brilhante do que era habitual, quando ouviam o som angelical da viola do pequeno Edgar. Assim tantos e tantos Domingos, tantas e tantas festas em que o menino músico participava! Cada vez mais apurado, caminhando a passos largos para a sua realização pessoal.

E ainda para orgulho e alegria da família.

Frequentava o Conservatório, numa cidade do seu distrito, onde já havia granjeado a simpatia de todos os colegas e professores. Estes já visualizavam nele um futuro bem promissor, imaginando gerar-se ali, em terras do Alentejo, um Mozart, um Beethoven, porque não? Como na gíria se diz, é desta massa que eles se fazem.

Á medida que o tempo passava mais a todos espantava o pequeno Edgar. Sempre acompanhado de seus pais e apoiado por toda a sua família, lá seguia num desbravar de caminhos onde as pautas musicais brilhavam, juntamente com ele. Começavam a abrir-se os horizontes para o pequeno músico: depois de ter passado pela Banda Filarmónica da Vila onde residia, recebeu convite para entrar numa Orquestra já bem conhecida e de renome no país.

Depois de tantos instrumentos que por ele passaram, chegava um, dos que lhe traria maior prazer, o Saxofone, instrumento que ele manobrava em suas mãos como se fora um brinquedo, era um verdadeiro deslumbre, ouvir o som que saia da alma desse menino através deste instrumento musical!

Choviam convites, e um, veio da Rússia convidando o jovem músico a deliciá-los com sua arte.

De um dia para o outro, voa para esse país distante, onde permanece algum tempo. Participa em concertos brilhando ao lado de outros jovens músicos, e mostrando ao mundo que sem arte não se pode viver, e esta dos sons é imprescindível.

Volta, cheio de projectos, e bem mais consciente do futuro que queria.

Avizinham-se os vinte e um anos, e Edgar já é homem, encantador de aspecto e simpatia.

É apanhado de surpresa pela paixão.

No Conservatório, cativa o coração de sua própria professora, sua pouca experiência no campo do amor o prende nos laços duma paixão arrebatadora, sonhando uma vida a dois, sendo embalados numa outra paixão que os ligava, a música. Assim vivia, ele, o amor e a música.

A pequena Vila permanecia ali, estendida na planície; Feliz, orgulhosa de mais um valor que tinha oferecido ao mundo, e lá continuava na sua calma, acordando ao som dos sinos da velha Igreja, que ficara um pouco triste, pois ultimamente o jovem músico ali ficava menos, derivado a outros compromissos.

Certo dia, a Vila acorda com o som costumeiro dos sinos.

Mas, desta vez, com um toque diferente, não era o chamamento para a missa, não!

O toque ouvido anunciava morte.

As pessoas assomavam-se às portas e às janelas, na ansiedade de saberem quem partira. Ouve-se então o primeiro zunzum, houve um grande acidente, diziam alguns, diz que morreu um jovem, diziam outros.

Da casa do casal de emigrantes, saíram gritos de dor, que se confundiam aos poucos com os gritos aflitivos do povo que corria pelas ruas dizendo “morreu o Edgar, morreu o Edgar o filho do Manuel João e da Benvinda.

As pessoas corriam em direcção à casa do jovem, na esperança que não fosse verdade tal notícia... Mas depara-se um quadro que jamais se apagará de suas memórias: sobre a mesa, um bolo de aniversário, composto com 21 velas, esperando o aniversariante que não viria, do lado um casal abraçado em choro compulsivo, Senhor, Senhor, diz que é mentira; Porquê  Senhor? Porquê?

Como chegara, Edgar partia, á mesma hora, no mesmo dia, vinte e um anos depois só que, desta vez, deixando um rasto de tristeza.

Na pacata Vila caiu um silêncio de luto.

A capela onde Edgar tantas vezes tocara sua viola abre as portas ao povo, que procura nela um refúgio para acalmar sua dor, olham as imagens, procurando resposta para este pesadelo.

Novamente a sua imaginação lhes traz á memória aquele brilho, extinto para sempre, quando ouviam o som da viola do pequeno Edgar...

Desta vez, o brilho é transformado em lágrimas, não de alegria, mas de dor.

Pela falta do som maravilhoso da viola de Edgar.

Os sinos da igreja redobram o toque, confirmando a morte.

Num piscar de olhos, mais uma vida é ceifada nas estradas deste país, privando o mundo inteiro da presença querida e cativante deste jovem promissor Saxofonista.

 

<< Edgar de Oliveira Guerreiro >>

    25-8-2007

Da tua tia com muito amor e saudade.

Rosa Guerreiro Dias 

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publicado às 12:24


1 comentário

De joaquim candeias a 14.11.2008 às 20:14

amiga certa a vida é mesmo assim.
Quando se trata de um ascendente, compreendesse que é a lei da vida, mas quando se trata de um descendente a nossa dor é muito mais profunda e ficamos com uma dor no coração que não tem cura. Agora é só o que resta, a lembrança, inclusivamente, a minha sobrinha está aqui comigo, e lembra-se que com nove anos (já estava na banda) terem ido tocar á porta da igreja para se despedirem daquele seu Amigo que partia.
Apenas podemos "sonhar" e sorrir, dos grandes e bons momentos que conseguimos guardar na nossa memória, é com esses "sonhos" que vamos conseguindo sobreviver com a dor da falta dos nossos familiares mais queridos.
A lembrança é a única coisa que nos resta.
Um Abraço amigo.

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