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A MINHA AMOREIRA

por Rosa Guerreiro Dias, em 15.09.12

  “”Amoreira Rainha””

           “1954”

 "" Fotos retiradas da Internete ""

 

Rua do Cotovelo-- Em Campo Maior      

 

Na casa da minha infância, quase há esquina do quintal, em frente ao poço! 

Houve em tempos uma enorme Amoreira que foi Rainha.

De copa grande, tronco grosso, de ramadas refrescantes, protegendo das calmarias a casinha.

Ali nascera dentro do possilgo, além da sombra, seu tronco, servia de coçadeira p'ró Xaninha. 

Altaneira, majestosa, de folha larga, amoras grandes e pretas!

Que riqueza, que primor!

É a melhor da redondeza, de certeza, dizia o tio “Carapinha”!

Falando da Amoreira com amor.

Por uma escadinha, encostada ao galinheiro, a garotada subia sem temor. 

A menina, ficava a meio, mais aquém, de cesta enfiada no braço.

Esperando assim ansiosa esse vai e vem, da negra e doce amora que lhe sabia também.

Depois da cesta cheia, a menina de olhos cor de amora, descia apreçada a escadinha, como quem não tivesse ainda provado o belo e doce fruto da Amoreira Rainha.

Mas, a cor da sua boca já tingida, denunciava sem querer, as negras amoras que comera, e a sua santa inocência tentava esconder.

Seu amado irmão, o Lérito, lá no cimo da amoreira, pendurado nas ramadas, como se fora simples passarinho, saboreava deliciado mais um fruto, enquanto colhia mais alguns para o caminho.

Que quadro lindo, que saudades!

 

Ainda ecoam aos meus ouvidos as sonoras gargalhadas da maltinha, que da rua pediam, Valério atira mais uma, mais uma amorinha!

Depois de encherem bem a barriguinha, colhiam frescas e tenras folhas para com elas forrar, cada um, sua caixinha de cartão, onde bichinhos da seda, laboravam seus casulos delicados, que encantava a pequenada, que por falta de brinquedos, aprendia com a mãe natureza tais segredos, de saberes de sabores de beleza, para mais tarde transmitir, com agrado, e afectos às vindouras gerações de filhos e netos.

A então menina, ainda bem menina, foi testemunha de quando, a Amoreira Rainha foi cortada rente ao chão.

Coitadinhas! Da Amoreira, e da menina!

Triste sina a da Amoreira, que p’ra não voltar a rebentar! Ali no pé das entranhas, para matar bem a raiz, durante dias a fio se fazia lume.

A tia Têtê assim o quis.

A criançada de olhar triste e sem entender, presenciou esse doloroso padecer.

E assim a frondosa " Amoreira Rainha"  da Rua do Cotovelo deixou de cobrir a casa!

Ao Xaninha, já não fazia falta o seu belo tronco para se coçar, pois a tia Têtê acabara com o possilgo, e com a criação de porco para a matança.

Estas mudanças deixaram o tio triste.

O poço que estava ali mesmo ao lado, pela morte da Amoreira, chorou, e até sua fresca água, salobrou!

Talvez de revolta por tanta injustiça, mas a tia assim o entendeu, pois as negras amoras sujavam-lhe o quintal, e para ela, os alegretes tinham que estar a reluzir de brancura.

Assim como que por magia de um dia para o outro a bela Amoreira Rainha desaparecia.

 

Somente no coração dessa menina de aspecto franzino!

Com laços de fita, e olhos cor de amora!

Permaneceu a saudade!

Que ainda hoje grita! Ainda hoje chora!...

 

Rosa Guerreiro Dias

Setembro de 2004 

15-9-2012    

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publicado às 08:41


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